segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Uma visão sobre os "rolezinhos"

    Antes de abrir uma pequena abordagem sobre os "rolezinhos", é preciso enfatizar a mentalidade do funk ostentação, o qual é inerente à sociedade da imagem e do consumo. Ou em outras palavras, podemos afirmar que esse gênero, repudiado por vários setores da sociedade, é apenas um reflexo do sistema ao qual estamos inseridos. Então, quando estiver escrito "ostentar", refiro-me à prática central de uma população que presa, acima de tudo e de todos, por sua imagem.  
   Vamos à reflexão principal, pois:  
   Na visão dos participantes dos "rolezinho", o movimento é apenas uma forma de diversão - já existente no país há décadas - que, devido a uma nova conjuntura (caracterizada por Milton Santos como meio técnico-científico-informacional) foi amplificada, massificada por meio das redes sociais, por isso abalou o status quo.
    Do outro lado do campo temos uma população vendo seus "privilégios" serem tomados. A parcela da sociedade que já frequentava shoppings - logo, com poder aquisitivo maior - não mais tem a possibilidade de "ostentar" o fato de poderem frequentar esses templos do consumismo. Assim, tomando por base o contexto ainda da sociedade da imagem, essa perda aparentemente banal atinge, na verdade, o âmago da estrutura social vigente.
    Essa atual situação é analoga a não tão distante discussão acerca da ascensão social das empregadas domésticas, na qual as classes sociais mais favorecidas viram seus "privilégios"de viajar para Nova Yorque, por exemplo, serem banalizados e, por conseguinte, a imagem a ser "ostentada" foi desmantelada.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre relativismo e diversidade cultural

                                                     

                                         Aceitando as diversidades

Com o avanço tecnológico dos meios de transporte,o advento da internet e a ampliação das redes televisivas, conhecer novos costumes, novas culturas, tornou-se fácil e corriqueiro. No entanto, o fato de conhecer diversas culturas pouco alterou a característica da sociedade de adotar apenas uma perspectiva como verdadeira, como absoluta. Essa característica pauta-se em um pensamento unilateral, presente, também, na pós-modernidade, o qual dificulta o convívio social, visto que estimula a intolerância.
Desde a colonização da América, há a supervalorização, neste continente, da cultura europeia em detrimento das nativas. Em 1884, no Congresso de Berlim, começava a intensificar-se o mesmo processo na África e na Asia. Recentemente, houve também a supervalorização da cultura estadosunidense e, devido à globalização, a influência dessas culturas está crescendo exponencialmente. Hoje, por exemplo, chineses gastam grande parte de seus salários em cirurgias plásticas a fim de “ganhar” traços ocidentais.
Além disso, esse processo, no qual uma cultura é apresentada como melhor do que outra, resulta em uma tentativa de monopólio ideológico e cultural e este, por sua vez, pode implicar a intolerância com os demais grupos de costumes divergentes, dificultando, assim , o convívio intercultural. Em outras palavras, trata-se de um processo no qual a valorização de uma perspectiva acarreta a marginalização das outras perspectivas existentes. Na França, por exemplo, ao se proibir a burca, houve a inferiorização da cultura muçulmana, a qual acarretou um forte conflito social entre as divergentes parcelas da sociedade francesa.
Porém, os que consideram apenas uma visão de mundo como correta, esquecem que não existe cultura absoluta, todas são relativas. Se nos Estados Unidos oferecer “gorjeta”é um ato de gratidão, no Japão é considerado um insulto. Se na França é costume utilizar talher, na China é costume utilizar hachi. Isso não significa, contudo, a superioridade de uma cultura em relação a outra, significa ,simplesmente, que são diferentes. Portanto, tendo em vista a diversidade como inerente à sociedade humana, uma possível estratégia para se evitar conflitos sociais e possibilitar, por conseguinte, um melhor convívio entre a população mundial, é aceitar essa diversidade e entendê-la como relativa.
Apesar de alguns grupos não concordarem, a diversidade cultural é intrínseca à condição humana. A fim de se conviver melhor no mundo globalizado, pois, é necessário haver a aceitação das diferenças culturais existentes em detrimento da imposição de uma perspectiva.

Algumas observações:

     *Fugindo um pouco da óptica do eurocentrismo exacerbado da grande maioria dos iluministas, Diderot constata a diversidade como inerente à sociedade humana.

"Nenhum homem recebeu da natureza o direito de mandar no outros" Denis Diderot

     *Não se pode deixar de citar também o apelo à tolerância de Voltaire




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A escravidão das vontades



Adorno, Debord e uma reflexão de Maria Rita Kehl sobre a escravidão das vontades.


      Maria Rita Kehl parte de dois textos fundamentais, para o aprofundamento das teorias de comunicação, e desenvolve uma reflexão sobre os processos de representação da realidade objetiva e subjetiva.
      Em todos os aspectos, a análise transita em concordância com as prerrogativas de Debord, mas introduz uma nova perspectiva ao transferir o foco do fetichismo da realidade material, do objeto como ídolo, para o homem-ídolo enquanto objeto.Marx usava o termo fetichismo como a fantasia do universo das mercadorias. Fetichismo é um termo religioso que designa uma idolatria falsa em contraste com uma crença verdadeira. Para os judeus, por exemplo, seria como o “bezerro de ouro” sendo representação fetichista do divino. Em Marx, o universo das mercadorias proporciona o suplemento fetichista necessário à espiritualidade do todo social. Esta espiritualidade seria a mesma que se perdeu como riqueza circulante nas trocas criativas entre os indivíduos, mas retorna agregada ao homem como mercadoria, e como crença necessária para o auto-esquecimento.
      Segundo Kehl e Debord, as sociedades do espetáculo são a forma pós-moderna das sociedades capitalistas. Mas o que Kehl acrescenta, com forte associação às teorias psicanalistas de Sigmund Freud, é que esta sociedade capitalista teve que efetuar um retorno das propriedades do fetiche dos objetos para as vidas humanas, ou melhor, para a vida de “eleitos” seres humanos.Se num primeiro momento o fetiche se encarnou na mercadoria, objetivando nessas relações de troca as condições subjetivas de sua produção, a circulação imaterial desta forma tecnologicamente desenvolvida de mercadorias, que são as imagens em sua incorporeidade eletrônica, produz o investimento das mesmas crenças que sustentam o fetiche, sobre as imagens dos indivíduos mais destacados nesta produção de espetáculos.
      Assim sendo, a crença que sustenta o fetichista teve que se expandir para abarcar os próprios homens, ou seja, teve que se expandir até alcançar a imagem humana.Não é o predomínio da imagem sobre a personalidade que caracteriza a sociedade contemporânea. O que nos diferencia hoje de outros períodos da modernidade é a espetaculização da imagem e seu efeito sobre as massas dos cidadãos indiferenciados, transformados em platéia, ou em uma multidão de consumidores da aparente subjetividade alheia.
      A mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder aos apelos de consumo sem nenhum conflito pois o consumo é que estrutura o modo de estar no mundo. A exaltação do indivíduo como representante dos mais elevados valores humanos com binado ao achatamento sofrido pelos sujeitos sob os apelos da sociedade de consumo, produz um estranho fenômeno, em que as pessoas, despojadas de sua subjetividade, dedicam-se a cultuar a imagem de outras, que são destacadas pelos meios de comunicação como representantes de dimensões de humanidade que o homem comum já não reconhece em si mesmo. Consome-se então a imagem espetaculizada de atores, cantores, esportistas, em busca da subjetividade individual perdida.Podemos encontrar em Debord as premissas desta reflexão, e também em Adorno. Para Debord o espetáculo domina os homens vivos, e a primeira fase desta dominação acarretou uma evidente degradação do ser para o ter. O que Kehl acrescenta é que agora temos: do ser, para o ter e para o ser outro. O homem cuja vida se banaliza precisa se fazer representar espetacularmente. Mas esse debate é sustentado por questões que Debord já colocava explicitamente.Debord coloca que na fase atual, a vida social leva a um deslizamento do ter para o parecer, e do qual todo ter deve extrair seu prestígio imediato. Ao mesmo tempo toda realidade individual tornou-se social, diretamente dependente da força social, moldada por ela.Quando o mundo real se transforma em simples imagem, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. O espetáculo ocupa o lugar do sagrado, num sistema circular de produção de sentido e de “verdades”.
      Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dias as massas iludidas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso dos bem-sucedidos. As massas tem os desejos deles. Obstinadamente, insistem na ideologia que os escraviza.Esta lógica está totalmente comprometida com a lógica da violência endêmica que vivemos hoje, e que se expande como uma epidemia no mundo contemporâneo, por que ela vende subjetividades alheias inalcançáveis para o homem comum.
     A publicidade convoca todos para gozar de privilégios dos consumidores de elite. Hoje a publicidade não serve apenas para convencer o possível comprador de um carro da opção de modelos que está ao seu dispor. A publicidade vende sonhos, ideais, atitudes e valores para a sociedade inteira. Mesmo que não consome nenhum dos objetos alardeados pela publicidade, consome a imagem deles. O desejo é um fenômeno social, desejamos o que outros desejam ou o que nos convidam para desejar. O modo de inclusão imaginária proposto pela sociedade de consumo, onde a força de trabalho do indivíduo vale menos do que o potencial de consumo que ele tem, os valores se inverteram. Hoje é vendido que todos tem direito ao prazer imediato. É a rapidez da pós modernidade ditando os paradigmas relacionais, tornando tudo descartável e substituível.
      O indivíduo hoje é tratado apenas como consumidor. Quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo.
      O fundamento desta lógica impõe que todas as necessidades lhe sejam apresentadas como possíveis, que todos os desejos poderão ser satisfeitos pela indústria cultural, mas por outro lado essas necessidades deverão ser organizadas de forma que ele se veja diante deste mercado globalizado como um eterno consumidor, aceitando sua transformação em objeto desta indústria. Assim, a fabricação completa da alienação se estabelece e suas ações já não são suas.
      Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. É por isso que o espectador é sempre um estranho para si mesmo. Porque o espetáculo está em toda parte.



Bibliografia:
Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Edit. Contraponto. 9º reimpressão. 2007Bucci, Eugênio e Kehl, Maria Rita. Videologias. Edit. Boitempo. 2004Adorno, Theodor W. Industria Cultural e sociedade. Edit. Paz e terra. 2002.


Retirado do site http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/adorno-debord-e-uma-reflexao no dia 14 de Janeiro de 2014

Um pouco sobre psicologia social


O QUE É A PSICOLOGIA SOCIAL?
Esta questão é muitas vezes efectuada pelas pessoas, visto que, quando confrontadas com esta disciplina, poucas sabem realmente qual o propósito da sua existência. O mais que pode acontecer é lembrarem-se de ciências sociais como a psicologia e a sociologia e pensarem que a psicologia social se apresenta como um meio através do qual se tenta dar resposta às preocupações de ambas. Porém, a realidade é mais complexa, uma vez que a psicologia social não constitui apenas a fronteira entre a psicologia e a sociologia, mas afirma-se, antes de mais, como uma disciplina autónoma. De facto, estas disciplinas partem de perspectivas teóricas distintas, ou seja, existem diferenças a nível da problemática teórica, dos problemas de investigação e dos paradigmas, construindo, assim, distintos objectos científicos.
A sociologia e a psicologia afirmaram-se, no final do século XIX como ciências autónomas, com objectos e métodos específicos, apresentando posições opostas na dimensão indíviduo-sociedade, cabendo à psicologia o estudo de disposições (motivações, intenções, atitudes, emoções) e à sociologia o estudo das representações sociais. De acordo com Silva e Pinto (1986), a psicologia evidencia a interacção entre determinantes biológicos e culturais das condutas e elucida as funções psicológicas do ser humano enquanto ser que se adapta ao meio. Por outro lado, a sociologia procura realçar as regularidades que existem na sociedade, ou seja, os padrões decorrentes da vida social que determinam a acção e que são observáveis pela recorrência do relacionamento entre as pessoas. Assim, procura articular as regularidades com a acção, percebendo como a estrutura condiciona a acção e como é que a acção produz a estrutura. De modo sucinto, Silva e Pinto (1986) referem que os psicólogos centram a sua atenção nas estruturas psicológicas gerais das condutas e os sociólogos vêem as estruturas como condicionadas pelas dinâmicas de grupo e pelas organizações sociais. Verifica-se, assim, um fosso acentuado entre estas duas disciplinas pois, a psicologia dá enfâse à dimensão individual e a sociologia à dimensão societal.
Porém, a psicologia social rompe com a oposição entre o indivíduo e a sociedade, enquanto objectos dicotómicos que se auto-excluem, procurando analisar as relações entre indivíduos (interacções), as relações entre categorias ou grupos sociais (relações intergrupais) e as relações entre o simbólico e a cognição (representações sociais). Assim, apresenta como objecto de estudo os indivíduos em contexto, sendo que as explicações são efectuadas tendo em conta quatro níveis de análise: nível intra-individual (o individuo), o nível inter-individual e situacional (interacções entre os indivíduos ou contexto), o nível posicional (posição que o indivíduo ocupa na rede das relações sociais), e o nível ideológico (crenças, valores e normas colectivas). A afirmação como disciplina autónoma foi desencadeada pela existência de estudos que sustentavam um novo domínio do conhecimento: o da interferência dos outros no comportamento dos indivíduos. Pepitone (1981) considera que a inauguração formal da psicologia social é feita com a publicação, em 1908, de Social Psychology pelo sociólogo Ross e de An Introduction to Social Psychology pelo psicólogo McDougall. Contudo, para Ross a psicologia social procura explicar a uniformidade das crenças, dos sentimentos e das acções que é desencadeada pela interacção dos seres humanos, enquanto que McDougall considera que o social está inscrito na natureza biológica do indivíduo.
Esta dupla referência do social e do psicológico continua ao longo da história da psicologia social, sendo que vai constituir o objecto de análise dos próximos artigos, tendo em conta, quer a psicologia social americana, que possui uma orientação mais psicológica, quer a psicologia social europeia, que se tem interessado mais pelos fenómenos colectivos.
                                                                                  Ana Luísa Fonseca

Fonte: www.hoops.pt/psicologia/psico1.htm, acessado em 14 de Jenaeiro de 2014



Psicologia - definição

     


Psicologia (psychologie) - O estudo do psiquismo, considerado porém como disciplina objetiva e experimental ("na terceira pessoa", como às vezes se diz, à diferença da introspecção, que se faz na primeira, e  da psicanálise, que supõe a segunda). No seu ropo, é uma ciência humana, plural decerto (há várias escolas, vários métodos, várias doutrinas, às vezes incompatíveis), porém não mais, talvez, que a história ou a sociologia. Resta saber apra que serve. Para conhecer ou para manipular? Para libertar ou instrumentalizar? Daí este conselho de orientação, que Canguilhem, num texto famosodava aos psicólogos: "Quando você sai da Sorbonne pela rua Saint-Jacques, você pode subir ou descer; se sobe, se aprocima do Panteão, que é o Conservatório de alguns grandes homens; mas se desce,  dirige-se certamente para a Chefatura de Polícia"("Qu`est-ce que la psychologie?", in études d`histoire et de philosophie des sciences, Vrin, 1970, p.381). Há uma certaterceira solução, que é não sair da Sorbonne. É a mais confortável, e a mais chata.

Fonte: André Comte-Sponville; tradução Eduardo Brandão (2011), Dicionário filosófico. São Paulo; WMF Martins Fontes.

Curso de psicologia da universidade Yale:
http://veduca.com.br/play/4777?q=psicologia

Curso de psicologia da universidade Berkeley:
http://veduca.com.br/play/2395?q=psicologia&t=16