Adorno, Debord e uma reflexão de Maria Rita Kehl sobre a escravidão das vontades.
Maria Rita Kehl parte de dois textos fundamentais, para o aprofundamento das teorias de comunicação, e desenvolve uma reflexão sobre os processos de representação da realidade objetiva e subjetiva.
Em todos os aspectos, a análise transita em concordância com as prerrogativas de Debord, mas introduz uma nova perspectiva ao transferir o foco do fetichismo da realidade material, do objeto como ídolo, para o homem-ídolo enquanto objeto.Marx usava o termo fetichismo como a fantasia do universo das mercadorias. Fetichismo é um termo religioso que designa uma idolatria falsa em contraste com uma crença verdadeira. Para os judeus, por exemplo, seria como o “bezerro de ouro” sendo representação fetichista do divino. Em Marx, o universo das mercadorias proporciona o suplemento fetichista necessário à espiritualidade do todo social. Esta espiritualidade seria a mesma que se perdeu como riqueza circulante nas trocas criativas entre os indivíduos, mas retorna agregada ao homem como mercadoria, e como crença necessária para o auto-esquecimento.
Segundo Kehl e Debord, as sociedades do espetáculo são a forma pós-moderna das sociedades capitalistas. Mas o que Kehl acrescenta, com forte associação às teorias psicanalistas de Sigmund Freud, é que esta sociedade capitalista teve que efetuar um retorno das propriedades do fetiche dos objetos para as vidas humanas, ou melhor, para a vida de “eleitos” seres humanos.Se num primeiro momento o fetiche se encarnou na mercadoria, objetivando nessas relações de troca as condições subjetivas de sua produção, a circulação imaterial desta forma tecnologicamente desenvolvida de mercadorias, que são as imagens em sua incorporeidade eletrônica, produz o investimento das mesmas crenças que sustentam o fetiche, sobre as imagens dos indivíduos mais destacados nesta produção de espetáculos.
Assim sendo, a crença que sustenta o fetichista teve que se expandir para abarcar os próprios homens, ou seja, teve que se expandir até alcançar a imagem humana.Não é o predomínio da imagem sobre a personalidade que caracteriza a sociedade contemporânea. O que nos diferencia hoje de outros períodos da modernidade é a espetaculização da imagem e seu efeito sobre as massas dos cidadãos indiferenciados, transformados em platéia, ou em uma multidão de consumidores da aparente subjetividade alheia.
A mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder aos apelos de consumo sem nenhum conflito pois o consumo é que estrutura o modo de estar no mundo. A exaltação do indivíduo como representante dos mais elevados valores humanos com binado ao achatamento sofrido pelos sujeitos sob os apelos da sociedade de consumo, produz um estranho fenômeno, em que as pessoas, despojadas de sua subjetividade, dedicam-se a cultuar a imagem de outras, que são destacadas pelos meios de comunicação como representantes de dimensões de humanidade que o homem comum já não reconhece em si mesmo. Consome-se então a imagem espetaculizada de atores, cantores, esportistas, em busca da subjetividade individual perdida.Podemos encontrar em Debord as premissas desta reflexão, e também em Adorno. Para Debord o espetáculo domina os homens vivos, e a primeira fase desta dominação acarretou uma evidente degradação do ser para o ter. O que Kehl acrescenta é que agora temos: do ser, para o ter e para o ser outro. O homem cuja vida se banaliza precisa se fazer representar espetacularmente. Mas esse debate é sustentado por questões que Debord já colocava explicitamente.Debord coloca que na fase atual, a vida social leva a um deslizamento do ter para o parecer, e do qual todo ter deve extrair seu prestígio imediato. Ao mesmo tempo toda realidade individual tornou-se social, diretamente dependente da força social, moldada por ela.Quando o mundo real se transforma em simples imagem, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. O espetáculo ocupa o lugar do sagrado, num sistema circular de produção de sentido e de “verdades”.
Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dias as massas iludidas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso dos bem-sucedidos. As massas tem os desejos deles. Obstinadamente, insistem na ideologia que os escraviza.Esta lógica está totalmente comprometida com a lógica da violência endêmica que vivemos hoje, e que se expande como uma epidemia no mundo contemporâneo, por que ela vende subjetividades alheias inalcançáveis para o homem comum.
A publicidade convoca todos para gozar de privilégios dos consumidores de elite. Hoje a publicidade não serve apenas para convencer o possível comprador de um carro da opção de modelos que está ao seu dispor. A publicidade vende sonhos, ideais, atitudes e valores para a sociedade inteira. Mesmo que não consome nenhum dos objetos alardeados pela publicidade, consome a imagem deles. O desejo é um fenômeno social, desejamos o que outros desejam ou o que nos convidam para desejar. O modo de inclusão imaginária proposto pela sociedade de consumo, onde a força de trabalho do indivíduo vale menos do que o potencial de consumo que ele tem, os valores se inverteram. Hoje é vendido que todos tem direito ao prazer imediato. É a rapidez da pós modernidade ditando os paradigmas relacionais, tornando tudo descartável e substituível.
O indivíduo hoje é tratado apenas como consumidor. Quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo.
O fundamento desta lógica impõe que todas as necessidades lhe sejam apresentadas como possíveis, que todos os desejos poderão ser satisfeitos pela indústria cultural, mas por outro lado essas necessidades deverão ser organizadas de forma que ele se veja diante deste mercado globalizado como um eterno consumidor, aceitando sua transformação em objeto desta indústria. Assim, a fabricação completa da alienação se estabelece e suas ações já não são suas.
Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. É por isso que o espectador é sempre um estranho para si mesmo. Porque o espetáculo está em toda parte.
Bibliografia:
Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Edit. Contraponto. 9º reimpressão. 2007Bucci, Eugênio e Kehl, Maria Rita. Videologias. Edit. Boitempo. 2004Adorno, Theodor W. Industria Cultural e sociedade. Edit. Paz e terra. 2002.
Retirado do site http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/adorno-debord-e-uma-reflexao no dia 14 de Janeiro de 2014
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